Afastamentos por Síndrome de Burnout crescem 114,80% Destaque

03 Jun 2019
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Pressão para cumprir metas abusivas, jornadas de trabalho exaustivas, falta de reconhecimento das chefias e de autonomia, várias horas vividas dentro de um ambiente de trabalho tóxico. Muita gente vai se identificar com essa rotina cada vez comum por conta de um mercado acelerado, exigente e movido pela busca incessante por resultados imediatos.

O esgotamento profissional existe. E não é apenas uma vontade inexplicável de não querer ir trabalhar ou um estresse comum do dia a dia. Chamado de Síndrome de Burnout, o transtorno acaba de ser oficializado na última semana pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma síndrome crônica. Enquanto um “fenômeno ligado ao trabalho”, a OMS incluiu o Burnout na nova Classificação Internacional de Doenças (CID), que deve entrar em vigor em 1º de janeiro de 2022.

“Isso só prova o quanto o ambiente corporativo hoje em dia está nocivo. As pessoas estão ficando doentes. É urgente que a gente dê relevância a esse tema e comece a tratar as corporações e as pessoas que nela trabalham”, analisa a mentora especializada em acelerar pessoas e negócios e fundadora da B-Have, Erika Linhares.

Atualmente, a síndrome está classificada no CID-10 Z73, na categoria que se refere aos problemas relacionados com a organização de seu modo de vida. Porém, o registro na nova CID aponta que o esgotamento “se refere especificamente a fenômenos relativos ao contexto profissional e não deve ser utilizado para descrever experiências em outros âmbitos da vida”.

A lista da OMS é utilizada como referência para estabelecer tendências e estatísticas de saúde. De acordo com a nova classificação, a síndrome é caracterizada por três elementos: sensação de esgotamento, cinismo ou sentimentos negativos relacionados a seu trabalho e eficácia reduzida.

“Essa provavelmente será a próxima revolução que veremos no ambiente corporativo e que vai fazer a diferença. Hoje, as empresas pensam muito no perfil do cliente, em como conquistá-lo, por outro lado, pensam muito pouco no perfil do seu funcionário: como ter um ambiente amigável e saudável”, diz Erika.

Cansaço extremo

Segundo dados da Secretaria de Especial de Previdência e Trabalho, na comparação entre os anos de 2017 e 2018, o crescimento de benefícios de auxílio-doença com a CID 10 Z73 chegou a 114,80%. O número de benefícios pulou de 196 para 421. Na Bahia, no mesmo período, triplicou: de 7 passou para 21.

Apesar do crescimento rápido, os números ainda são pequenos por conta da dificuldade de diagnosticar a doença, como destaca o psicólogo e diretor técnico da Holiste Psiquiatria Ueliton Pereira. “É muito difícil porque os sintomas são parecidos com o de outras patologias, como angústia, dor de cabeça, pressão alta, irritabilidade. Para diagnósticar o Burnout tem que eliminar vários exames físicos, laboratoriais e psicológicos”.

Não dá para confundir alta performance com trabalhar além do limite, como chama atenção Valerya Carvalho, uma das fundadoras da Escola Sentido. A instituição trabalha com técnicas e métodos para o desenvolvimento do potencial criativo e inovador das pessoas. “Ainda é muito comum que as empresas lidem com a síndrome do Burnout como um ponto fraco das pessoas em lidar com a pressão, ou como uma incapacidade de organização do tempo versus entrega dos resultados”, explica.

Equilíbrio

Foi o que aconteceu com a representante comercial Maria Carvalho, que lidava constantemente com várias metas para cumprir em um curto espaço de tempo. “Os cabelos começaram a cair, sentia muita angústia, dor de estômago, ficava irritada, sofria muito. Domingo eu entrava em desespero porque tinha que ir trabalhar na segunda. Passei a tomar vários calmantes para aguentar”, lembra. O que importava era o número. “Então eu fui demitida. Fiquei tão feliz nesse dia que fiz até uma tatuagem. Foi como nascer de novo”.

Para Sabrina Ferre, psicóloga chefe da plataforma de terapia online FalaFreud, as empresas ainda não estão preparadas para evitar o Burnout. “É necessário um trabalho de conscientização dos gestores, mudanças de políticas internas de valorização e não somente da capacidade de entrega”, diz.

A diretora de gestão de eventos da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-BA), Fernanda Borges, concorda: “Pessoas felizes com o que fazem produzem mais e disseminam contribuições positivas, mostrando que cuidar delas é um investimento que tem retorno”, acrescenta.

Mariana Bittencourt, professora Sou professora da rede estadual de educação desde o ano de 2011. Em determinado momento da vida comecei a me sentir esgotada, deprimida. Me arrumava pra ir ao trabalho e começava a sentir dor de cabeça, vomitava e desistia de sair pra trabalhar. Tudo passava e um sentimento de culpa aparecia, junto com a vontade absurda de não sair de casa. Ao ir para o trabalho me dava uma sensação de ansiedade enorme. Tinha vontade de que tudo acabasse rápido. Vi que algo não estava bem e resolvi me abrir com um aluno de psicologia. Ele me pediu pra procurar um psiquiatra e assim eu fui diagnosticada com Burnout. Foi difícil entender que é um problema de saúde, porque existem juízos de valor que impedem de percebermos que o problema não é um desvio moral, mas sim uma doença ou um conjunto delas. A direção da escola sempre tratou com muito desdém o meu problema. O que me deixava extremamente desconfortável quando voltava das licenças médicas. Tirei duas – uma de dois meses e outra de três meses – no período de dois anos. Comecei o tratamento há três anos com uso de medicação e terapia. Engravidei e, durante a gestação, abandonei o uso dos medicamentos. Hoje só faço terapia. Sempre amei dar aula e até hoje não me vejo fazendo outra coisa. Mas o ambiente de trabalho em muitos casos é adoecedor. Compreender as coisas que eu gostava e não gostava de fazer foi fundamental para a superação da síndrome. Fiz boxe, atletismo, canto e violão. Mudei o local que trabalhava, continuo apaixonada pela minha profissão e lidando com o problema de saúde mental que tenho.

DICAS PARA PREVENIR A EXAUSTÃO

Atividades alternativas

Procure se exercitar, realizar alguma atividade física como academia ou algum tipo de esporte. Acupuntura e algumas terapias alternativas também são importantes para se ter uma melhor qualidade de vida. “Mas, a principal atitude que a pessoa deve ter é se dar limites, realizar um tratamento de reconhecimento pessoal, ter seus momentos de lazer, saber se desligar do trabalho e dos assuntos que envolvam o ambiente de trabalho”, aconselha o psicólogo e diretor técnico da Clínica Holiste, Ueliton Pereira.

Esteja forte com você mesmo

Segundo a mentora especializada em acelerar pessoas e negócios, além de fundadora da empresa B-Have, Erika Linhares, é preciso buscar o equilíbrio: “Muitas dessas doenças psíquicas estão relacionadas a como as pessoas recebem o que o ambiente provê. Se eu estou com uma mentalidade forte e progressiva, eu recebo aquilo de uma forma mais simples, mais tranquila. Já se estou com uma mentalidade fixa e pessimista, eu projeto aquilo muito maior do que é. Por isso a primeira dica para prevenir a síndrome é cuidar da mente”.

Se permita viver, errar e acertar

Esta é a orientação da psicóloga chefe do aplicativo FalaFreud, Sabrina Ferrer: “Estamos falando de indivíduos que tendem ao perfeccionismo. Utilize sempre técnicas de respiração, tenha válvulas de escape e invista tempo naquilo que lhe dá prazer”, aconselha a especialista.

Conheça seus limites

Não tente abraçar o mundo ou tapar todas as lacunas no trabalho. “Fuja de metas abusivas e do excesso de autocobrança. Reconheça até onde pode ir e quais são os fatores que podem lhe ajudar a conseguir chegar no seu objetivo. isso ajuda, e muito”, pontua, o psicólogo e diretor técnico da Clínica Holiste, Ueliton Pereira. “Faça um esforço para separar as demandas pessoais das cobranças do trabalho e, principalmente, não abra mão da sua vida social”, completa.

Questione-se

“Sim, quero ser um excelente profissional e atingir excelentes resultados. Mas que preço quero pagar para isso?”. Para uma das fundadoras da Escola sentido, Valerya Carvalho, o profissional precisa entender onde ele quer chegar e avaliar se está mesmo disposto a pagar o preço para chegar lá. “A habilidade mais importante para se ter qualidade de vida é a capacidade de transformar adversidade em desafio gerador de satisfação. transforme ameaças potenciais em desafios satisfatórios”, diz.

Ame

Não há nada que traga mais paz do que estar com quem amamos, família e amigos, como pontua Erika Linhares. “Se dedique a quem você ama. aproveitar o tempo com amigos e ter pessoas para te ajudar nesse momento de esgotamento também é muito importante”.

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